Contribuição de Stanley J. Stein para os estudos do Jongo no Vale do Paraíba-Vassouras e Perspectivas de Robert Slenes sobre do Jongo

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Foto tirada na Associação da Comunidade Negra de Remanescentes da Fazenda de São José. Agradeço aos meus colegas de grupo pela foto.

Este foi o texto de apresentação de um seminário de História da África e dos Afrodescendentes no Brasil sobre Jongos no Vale do Paraíba.

Introdução:

Eu irei apresentar a trajetória intelectual de Stanley J. Stein a partir de seu relato e também na perspectiva de Robert Slenes, presentes no livro Memórias do Jongo: as gravações históricas de Stanley J. Stein. Vassouras, 1949. Com o fim de mostrar a importância das fontes coletadas e os estudos desenvolvidos por ele para a pesquisa sobre o Jongo, no Brasil.

Primeiros passos da trajetória intelectual de Stein

Stanley J. Stein nasceu em Nova Iórque, em 1920, formou-se em História em Harvard, em 1950. Especializou-se em História da América Latina. Veio ao Brasil com uma bolsa de estudos, em 42 e voltou em 48, para o Rio de Janeiro, para realizar seus estudos de doutoramento. Ele confessa que tinha grande interesse em estudar a participação do Brasil colonial na exportação desde o século XVI, com o açúcar, tabaco, depois o ouro e por fim o café.

Como alvo de seus estudos, escolheu o município de Vassouras, que foi maior produtora de café do mundo, na segunda metade do século XIX. Desenvolveu-o com base na documentação presente no arquivo da câmara municipal, em jornais, cartórios públicos e documentos de arquivos particulares, guardados nas casas das famílias locais. Sua tese levou o nome de Vassouras: um município brasileiro do café, 1850-1900.

Este trabalho tem grande preocupação em retratar as mudanças do cotidiano, das mulheres e da cultura material. Ele inova na ideia acerca dos escravos, mostrando-os não como meros agentes passivos, mas como agentes ativos, na própria história.

Influências em sua trajetória acadêmica:

No percurso de seus estudos em Harvard, Stein recebeu várias influências teóricas e metodológicas. Ele cita o folclorista Benjamin Botkin e os antropólogos americanos Melville Herskovits, Robert Redfield, que foi forneceu várias referências sobre sincretismo e etnomusicologia; esta última referência foi fundamental para levá-lo a prestar a devida atenção nos jongos.

Em relação aos intelectuais brasileiros, Stein também foi fortemente marcado, principalmente pelos estudos recém lançados de Gilberto Freyre, com Casa Grande e Senzala, na literatura com José Lins do Rego e seus cinco romances sobre o ciclo da Cana, a História do café no Brasil, de Affonso de Taunay, que foi grande fornecedor de fontes para seu trabalho.

Importância nos estudos sobre o Jongo:

Este pesquisador tem grande importância nos sobre o jongo, por conta da enorme quantidade de jongos, que coletou em sua viagem de 1948, ao Brasil. Para o desenvolvimento de seus trabalhos, fez diversas entrevistas com pessoas que viveram no período da escravidão.

Os estudiosos já haviam dado atenção às danças acompanhadas do Jongo, mas desprezaram os cantos, julgando-os sem importância. A perspectiva adotada por Stein, iluminada pelas teorias dos antropólogos americanos citados anteriormente, ele passa a dar mais atenção às letras das canções. Ele encontra nos jongos a sátira dos escravos contra os senhores, o tom amargo de ter a liberdade, mas não ter acesso a terra para plantar e também a notícia da abolição:

“Tava dormindo, cangoma me chamou:

Levanta, povo, que o cativeiro já acabou”

Sobre a liberdade sem acesso a terra:

“Não me deu banco pra mim sentar;

Dona Rainha me deu uma cama,

Não me deu banco pra me sentar”

Sobre a ironia dos jongos contra os senhores:

“Com tanto pau no mato

Embaúba é coronel”

Embaúba é uma madeira inútil; “coronel” é uma das formas de se referir ao senhor, que na maioria das vezes detinha tal título. Dessa forma os escravos ridicularizam seus senhores.

Stein, em seu período que passa no Brasil, grava vários jongos em seu gravador de fio, que é uma espécie de aparelho que registra sons em fio de aço, muito popular no pós-guerra, porém muito grande e pesado. Ele coletou vários desses jongos de homens e mulheres ex-escravos e ex-escravas, que viveram o período da pós-abolição e levou para os EUA, na volta da viagem.

Este rolo de arame, na qual estavam as gravações dos jongos ficou perdida em seu escritório por seis décadas. Porém, então o brasileiro Gustavo Pacheco estudante de antropologia do Museu Nacional, também organizador do volume Memórias do Jongo, que homenageia Stanley Stein, em 1999, foi à Universidade de Princeton e se interessou por tais gravações ao ouvir que Stein as tinha, porém sem saber onde havia guardado. Ao achá-las ele as enviou para Pacheco, no Rio de Janeiro.

Tais gravações contribuíram muito para os estudos sobre o jongo, por parte dos historiadores sociais.

Perspectivas de Robert Slenes sobre o Jongo a luz das ideias de Stein:

O jongo tem o caráter comunitário, independente se é dançado ou não. Quando eram acompanhados pelas danças, permitidas pelo senhor, nos sábados à noite, a luz das fogueiras, o fogo sagrado, que falaremos um pouco, posteriormente, dos instrumentos musicais, como os tambores afinados ao fogo, os chocalhos cheios de pedrinhas ou sementes, a puíta, espécie de cuíca de voz baixa. Ele é supervisionado pelo Mestre-Jongueiro, chamado na celebração de Rei do Caxambu¸ que é acompanhado por sua rainha; no início da festa ele lançava um jongo enigma. A partir de então os participantes começavam a dançar em círculos, bater palmas e cantar, enquanto os instrumentos eram tocados. Determinado momento o Rei do Caxambu cedia seu lugar a outro que tentava desvendar o jongo que o rei havia lançado e propondo outro.

Seu caráter comunitário também fica explícito a partir de outras características (1) os escravos de uma fazenda convidavam a outros de outras fazendas, para participar de suas festas, com cantos de jongos; (2) eles também cantavam todos juntos seu cotidiano, suas dificuldades, por vezes satirizando o senhor e sua família. Alguém puxava um verso propondo ao outro que respondesse, fazendo rimas com os versos do primeiro.

Slenes afirma que a obra de Stein nos propõe dois desafios (1) a percepção da linha tênue que separava os jongos do sagrado, da religiosidade e do lúdico e secular. Ele nos mostra que os elementos que compunham o jongo têm aspectos fortemente marcados pelo imaginário religioso dos negros. A fogueira, um desses elementos enumerados por ele, representava o fogo sagrado, a forma que se tinha para comunicar-se com os espíritos dos recém-mortos; e os Cultos de aflição, que são os cultos que envolviam músicas e danças, que eram meios de curas. Entretanto, é necessário fazer a crítica deste pensamento, muito marcado pela tradição ocidental, de separar o sagrado do que é secular, profano. Para as sociedades africanas o sagrado e o secular se misturam, de forma que toda a vivência se caracteriza por ser sagrada. Essa lógica está muito presente na sociedade medieval. (2) Ele também teve a percepção que por mais que houvesse a disputa entre os mestres jongueiros, havia uma coesão muito forte entre todos em volta das canções, que mostra esse nexo social mais amplo.

As letras dos jongos são feitas de forma que só os próprios escravos que cantam os jongos possam entender, inviabilizando o entendimento dos senhores:

“O sol virou

Nasceu”

Quando esses versos curtos eram pronunciados, os escravos sabiam que algo de perigoso poderia acontecer, e que, portanto, era uma expressão de alerta. Dessa forma ninguém entenderia os versos, caso não entendesse o código.

Julia Pinheiro Andrade afirma, em seu livro A Cidade Cantada: educação e experiência estética, no capítulo em que aborda o rap, que este ritmo foi criado pela periferia, que usava o vocabulário e as gírias do próprio bairro em suas letras, de forma que quem fosse de fora, das áreas mais abastadas da cidade, não conseguiria compreender. Isso se reflete hoje nas letras dos Racionais MC’s:

“Não adianta querer

Tem que ser tem que pá

O mundo é diferente

Da ponte pra cá.”

Da ponte pra cá, Nada como um dia após o outro dia.

Todas essas considerações que Bob Slenes nos faz sobre o Jongo em Vassouras é ancorado na nova historiografia sobre a África. Os negros escravizados no Vale do Ribeira vinham, basicamente, da região central da África, tanto ocidental quanto oriental; esse dado é de fundamental conhecimento, pois nos revelam várias coisas. Como a questão de que este território, da África central, compreende uma grande unidade cultural: linguística, na cosmovisão e na ideologia política. Eles compartilhavam do mesmo universo religioso, das mesmas ideias sobre medicina popular, muito vinculado às celebrações religiosas, como o já citado Culto de Aflição, eles também criam na comunicação com os mortos. Essa nova historiografia também nos mostra a tradição paralela ao jongo, radicada em Cuba, comprovando assim, que tais tradições vieram do mesmo local, da África central.

Slenes com isso sarava o grande Jongueiro Cumba, Stanley Stein, por sua grande contribuição nos estudos sobre o jongo, ao coletar as gravações de tais cantos na década de 40 e 50. Ele também sarava a grande folclorista brasileira Maria de Lourdes Borges Ribeiro, que também na década de 50 registra grande quantidade de jongos, que também foram fundamentais para o estudo desse dado tão rico e importante da cultura dos negros no pré e pós-abolição.

O grande desafio que o jongo nos propõe é a análise de seus versos e metáforas, para que por meio deles possamos descobrir e compreender a cultura riquíssima e preciosa destes negros.

Bibliografia:

Andrade, Julia Pinheiro.  “Racionais MC’s e a periferia onipresente”, In Idem, A cidade cantada: educação e experiência estética, São Paulo: Unesp, pp. 195-251, 2010.

Ribeiro, Maria de Lourdes Borges. “Influência da Cultura Angolense no Vale do Paraíba”, Revista brasileira de folclore, ano VIII, nº 21, Maio/Agosto, 1968, pp. 155-72.

Slenes, Robert W. “‘Eu venho de muito longe, eu venho cavando’: jongueiros cumba na senzala centro-africana”, In Silvia Hunold Lara e Gustavo Pacheco (orgs.), Memória do jongo: as gravações históricas de Stanley J. Stein. Vassouras, 1949, Rio de Janeiro/SP: Folha Seca/Campinas/Cecult, 2007, pp. 109-56.

Stein, Stanley J. “Uma viagem maravilhosa”, In Silvia Hunold Lara e Gustavo Pacheco (orgs.), Memória do jongo: as gravações históricas de Stanley J. Stein. Vassouras, 1949, Rio de Janeiro/SP: Folha Seca/Campinas/Cecult, 2007, pp. 35-42.