Análise de 2 Reis 24 e 25: Surgimento da História Deuteronomista e sua interpretação da queda do Reino de Judá

O texto a seguir foi o meu trabalho de História Antiga I. O objetivo do texto é fazer uma análise de um dos documentos, que o professor usou na sala de aula; dentre eles, foi usado um texto bíblico do antigo testamento, de 2 Reis 24:18-20; 25:1-16, que é o objeto de minha análise. O trabalho a seguir é de História, não de Teologia bíblica ou dogmática; eu apenas usei os métodos de análise da teologia, para chegar ao meu objetivo.

A seguir está o trecho que eu analisei, é um pouco longo, porém a citação dele é fundamental; a tradução que eu usei é a da Bíblia de Jerusalém; logo após vem a minha análise.

Agradeço ao meu amigo Rui Luis pelas contribuições no meu texto.

2 Reis 24:18-20; 25:1-16:

“Sedecias tinha vinte e um anos quando começou a reinar e reinou onze anos em Jerusalém; sua mãe chamava-se Hamital, filha de Jeremias, e era de Lebna. Ele fez o mal aos olhos de Iahweh, como o havia feito Joaquin. Isso aconteceu a Jerusalém e a Judá por causa da ira de Iahweh que, por fim, os rejeitou de sua presença.

Sedecias revoltou-se contra o rei de Babilônia. No nono ano de seu reinado, no décimo mês, no dia dez, Nabucodonosor, rei da Babilônia, veio atacar Jerusalém com todo o seu exército; acampou diante da cidade e levantou trincheiras ao seu redor. A cidade ficou sitiada até o décimo primeiro ano de Sedecias. No dia nove do mês quando a fome se agravava na cidade e a população não tinha mais nada para comer, abriram uma brecha nas muralhas da cidade. Então todos os guerreiros escaparam de noite pela porta que há entre os dois muros perto do jardim do rei – os caldeus ainda cercavam a cidade –, e tomou o caminho de Arabá. O exercito dos caldeus perseguiu o rei e o alcançou nas planícies de Jericó, onde todos os seus soldados se dispersaram para longe dele. Os caldeus agarraram o rei e o conduziram a Rebla, à presença do rei da Babilônia; eles o submeteram a julgamento. Mandaram degolar os filhos de Sedecias na presença dele, depois Nabucodonosor furou os olhos de Sedecias, algemou-o e o conduziu para Babilônia.

No quinto mês, no dia sete – era o décimo nono ano de Nabucodonosor, rei da Babilônia –, Nabuzardã, comandante da guarda, oficial do rei da Babilônia, fez sua entrada em Jerusalém. Incendiou o Templo de Iahweh, o palácio real e todas as casas de Jerusalém. E todo o exército caldeu que acompanhava o comandante da guarda destruiu as muralhas que rodeavam Jerusalém. Nabuzardã, comandante da guarda, exilou o resto da população que tinha ficado na cidade, os desertores que haviam passado para o lado do rei de Babilônia e o resto da multidão. Do povo pobre da terra, o comandante da guarda deixou uma parte, como viticultores e agricultores.

Os caldeus quebraram as colunas de bronze do Templo de Iahweh, as bases entalhadas e o Mar de bronze, que estavam no Templo de Iahweh, e levaram o bronze para Babilônia. Levaram também os recipientes para cinzas, as pás, as facas, as taças e todos os objetos de bronze que serviam para o culto. O comandante da guarda tomou os turíbulos e os vasos de aspersão, tudo o que era de ouro e tudo o que era de prata. Quanto às duas colunas, ao Mar único e às bases entalhadas, que Salomão havia feito para o Templo de Iahweh, não se poderia calcular quanto pesava o bronze de todos esses objetos.”

Análise do texto:

Os textos da Bíblia hebraica, ou Antigo Testamento, como é chamado dentro da Bíblia cristã, estão circunscritas em tradições, que através de uma análise exegética do Pentateuco ou Torah, podem ser identificadas. Em torno desse tema reuniram-se vários teólogos, que ao longo do século XX desenvolveram diversas teses, para compreender a composição destes textos.

Por não se tratar de um trabalho teológico, mas histórico, e por não ser uma análise histórica dos textos da lei, não entraremos neste debate; basta enumerar as tradições: a Eloísta e Javista, que se distinguem por seus locais de surgimento e por chamarem a divindade de nomes diferentes, a primeira de Elohim e a segunda de Iahweh; a tradição Sacerdotal e a Deuteronomista. Esta última é a que nos interessa; ela carrega este nome por conta do nome do quinto livro do Pentateuco, o Deuteronômio. Ele se baseia numa teologia em que a divindade e o fiel estabelecem uma relação com base na retribuição: caso o devoto seja fiel, Deus o abençoará, mas se houver desobediência a maldição e o castigo não tardarão a vir. Essas ideias são expressas nos textos:

“Portanto, se obedeceres de fato à voz de Iahweh teu Deus, cuidando de pôr em prática todos os seus mandamentos que eu hoje te ordeno, Iahweh teu Deus te fará superior a todas as nações da terra. […] Benditos serás tu na cidade, e bendito serás tu no campo. […] Todavia, se não obedeceres à voz de Iahweh teu Deus, cuidando de pôr em prática todos os seus mandamentos e estatutos que hoje te ordeno, todas estas maldições virão sobre ti e te atingirão: Malditos serás tu na cidade, e maldito serás tu no campo!” [1]

“Eis que hoje estou colocando diante de ti a vida e a felicidade, a morte e a infelicidade. Se ouves os mandamentos de Iahweh teu Deus que hoje te ordeno – amando a Iahweh teu Deus, andando em seus caminhos e observando seus mandamentos, seus estatutos e suas normas –, viverás e te multiplicarás. […] Contudo, se o teu coração se desviar e não ouvires, e te deixares seduzir e te prostrares diante de outros deuses, e os servires, eu hoje vos declaro: é certo que perecereis!” [2]

Vale ressaltar que o desenvolvimento da teologia deuteronomista foi fundamental para a sobrevivência da fé do povo judeu pós-exílico; pois a ideia que se tinha, com a queda do reino do sul, Judá, não era de que o exército hebreu havia perdido a batalha, mas que o seu Deus havia sido derrotado pelos deuses dos outros povos inimigos. Eles ainda tinham uma visão henoteísta, ou seja, a crença numa divindade tribal, que não nega a existência dos deuses das outras tribos. O deuteronomismo substituiu essa ideia de que Iahweh fora derrotado e interpretou o episódio do exílio como seu desígnio, que foi o castigo por causa da desobediência de seu povo.

O texto de Deuteronômio foi produzido no período posterior ao exílio babilônico, como boa parte dos textos sagrados hebraicos, embora existam ênfases e fragmentos que remetem a períodos anteriores. Esta forma pensar a relação entre a divindade e as pessoas influenciou boa parte dos textos chamados “Históricos”, dentro deles também o segundo livro dos Reis.

Neste livro dos Reis, a conduta religiosa dos reis de Israel e Judá é analisada, de forma que Iahweh envia castigos ou bênçãos ao povo hebreu, de acordo com o reinado destes homens. Os textos finais deste livro falam dos últimos reis e de como seus atos causaram a invasão babilônica a Jerusalém (visto que o reino do norte, Israel, já havia sido destruído pela Assíria), liderada por Nabucodonosor. Sedécias, constituído pelo rei da Babilônia como rei de Judá e seus antecessores são pesados na balança da religião e reprovados; com eles todo o povo também é rejeitado por Iahweh, que está irado [3]. Nabucodonosor envia suas tropas a Jerusalém, uma segunda vez, e exila o restante da população que ele havia deixado da primeira leva de exilados. Dessa vez ele assassina o rei, que fora por ele mesmo colocado no trono, e termina de pilhar a cidade, os palácios e o templo de Jerusalém, construído por Salomão. Com isso a narrativa mostra as grandes perdas para aquele povo: o palácio e seu rei, símbolos do poder civil, da dinastia davídica; destruição do símbolo da ligação de Deus e o povo, o templo de Jerusalém; e perda da terra prometida, com o exílio para a Babilônia.

Todos esses feitos são vistos a partir da ótica deuteronomista, ou seja, como castigo de Iahweh, frutos da desobediência à sua vontade.

O texto também não deixa de mostrar outro aspecto da mentalidade oriental Antiga, a valorização da cultura material, nos relatos. O templo é descrito como um lugar de incontáveis riquezas, com muita prata, ouro e principalmente bronze, todas elas a serviço dos sacerdotes:

”Os caldeus [Babilônicos] quebraram as colunas de bronze do Tempo de Iahweh, as bases entalhadas e o Mar de bronze, que estavam no Templo de Iahweh, e levaram o bronze para Babilônia. Levaram também os recipientes para cinzas, as pás, as facas, as taças e todos os objetos de bronze que serviam para o culto. O comandante da guarda tomou os turíbulos e os vasos de aspersão, tudo o que era de ouro e tudo o que era de prata. Quanto às duas colunas, ao Mar único e às bases entalhadas, que Salomão havia feito para o templo de Iahweh, não poderia calcular quanto pesava o bronze de todos esses objetos.” [4]

As informações sobre cultura material devem ser consideradas com as ressalvas devidas a uma cultura que não tinha pelo registro objetivo o mesmo apreço que temos hoje; de fato, o caráter “hiperbólico” das culturas semitas, seu amor à ênfase, sugerem-nos que o contexto, muito mais modesto, do Templo restaurado em Jerusalém no período pós-exílico pode estar por trás dessa glorificação arquitetônica do Templo anterior, que fora destruído. Tanto mais que, com essas ênfases, a perda sofrida pelos judeus ficava mais clara e a lição ensinada por Iahweh, mais contundente.

Este texto foi escrito por escribas a partir das tradições orais e também escritas deste episódio, como, por exemplo, os Anais dos Reis de Judá [5]; eles interpretaram todos esses episódios a partir da teologia deuteronomista, que era a forma que eles tinham para explicar todos esses eventos. A redação foi feita no período posterior ao exílio, tendo o povo judeu retornado para sua terra, para reconstruí-la novamente. Essa forma de pensar a história de Israel teve a função de reinterpretar a experiência trágica do exílio, reafirmando o poder de Iahweh; mas também para servir de exemplo para as próximas gerações, para que ninguém mais desobedecesse às leis, arriscando-se a sofrer assim, o mesmo castigo; como a ideia de História, como Magistra Vitae, dadas as devidas proporções.


[1] Deuteronômio 28:1, 3, 15-16, Bíblia de Jerusalém. Nova Edição, revista e ampliada. São Paulo: Paulus, 2002 (5ª reimpressão). Todas as referências dos textos bíblicos serão desta tradução.

[2] Deuteronômio 30: 15-17.

[3] 2 Reis 24:20.

[4] 2 Reis 25:13-16.

[5] 2 Reis 24:5

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