O país de uma nota só, por Carlos Marighella

Conheço bem pouco de Carlos Marighella, um grande militante do Partidão (PCB) e que lutou arduamente pela liberdade e contra a violência da ditadura militar. O pouco que conhecia estava restrito à sua luta política, mas nesta semana descobri um livro de poesias muito interessante. Deixo aqui uma de suas poesias: O país de uma nota só.

“Não pretendo nada,
nem flores, louvores,
triunfos.
Nada de nada.
Somente um protesto,
uma brecha no muro,
e fazer ecoar,
com voz surda que seja
e sem outro valor,
o que se esconde no peito,
no fundo da alma
de milhões de sufocados.

Algo por onde possa filtrar o pensamento,
a ideia que puseram no cárcere.
A passagem subiu,
o leite acabou,
a criança morreu,
a carne sumiu,
o IPM prendeu,
o DOPS torturou,
o deputado cedeu,
a linha dura vetou,
a censura proibiu
o governo entregou
o desemprego cresceu,
a carestia aumentou,
o Nordeste encolheu,
o país resvalou.

Tudo dó,
tudo dó,
tudo dó…
E em todo o país
repercute o tom
de uma nota só…
de uma nota só…”

Referência do poema: “O país de uma nota só”, In Poemas: Rondó da Liberdade, São Paulo: Brasiliense, 1994, pp. 92-3.

Pra quem não conhece a música que os Racionais MCs fizeram em sua homenagem e memória: “Carlos Marighella – Mil faces de um homem leal” – https://www.youtube.com/watch?v=5Os1zJQALz8

Viva Carlos Marighella!

O Grande Inquisidor e a liberdade

“Não há preocupação mais constante e torturante para o homem do que, estando livre, encontrar depressa a quem sujeitar-se. Mas o homem procura sujeitar-se ao que já é irrefutável, e irrefutável a tal ponto que de uma hora para outra todos os homens aceitam uma sujeição universal a isso. Porque a preocupação dessas criaturas deploráveis não consiste apenas em encontrar aquilo a que eu ou outra pessoa deve sujeitar-se, mas em encontrar algo em que todos acreditem e a que se sujeitem, e que sejam forçosamente todos juntos. Pois essa necessidade da convergência na sujeição é que constitui o tormento principal de cada homem individualmente e de toda a humanidade desde o início dos tempos. Por se sujeitarem todos juntos eles se exterminaram uns aos outros a golpes de espada. Criavam os deuses e conclamavam uns aos outros: “Deixai vossos deuses e vinde sujeitar-se aos nossos, senão será a morte para vós e vossos deuses!”. E assim será até o fim do mundo, mesmo quando os deuses também desaparecerem na Terra: seja como for, hão de prosternar-se diante dos ídolos.”

O Grande Inquisidor, nas palavras de Ivan Karamázov para Aliócha Karamázov, em Os Irmãos Karamázov, Fiódor Dostoiévski.

Paulinho da Viola, Sinal fechado e alguns pensamentos

“Me perdoe a pressa
É a alma dos nossos negócios…
Oh, não tem de que
Eu também só ando a cem
Quando é que você telefona?
Precisamos nos ver por aí
Pra semana, prometo,
Talvez nos vejamos, quem sabe?
Quanto tempo…
Pois é, quanto tempo…”

Quanto mais ouço a música Sinal fechado, do Paulinho da Viola mais percebo que o tempo passa tão rápido como um abrir e fechar de um semáforo, as pessoas se vão como as idas e vindas dos carros e a vida passa com a velocidade de um flácido aperto de mãos de quem está atrasado para um novo compromisso.
Como a noção de tempo se transformou de alguns séculos para cá! O tempo religioso, das orações, do ofício sagrado, do badalar dos sinos nas imponentes e majestosas catedrais se transformou no tempo econômico, ditado pelos números dos relógios e apitos dos sinos nas fábricas: no tempo-dinheiro. O tempo gasto no transporte, nos estudos, no trabalho – por mais que gostemos de nossos estudos e empregos – é estressante, nos sufoca, nos angustia; dói demais saber que estamos longe daquilo que gostaríamos de fazer: talvez sentar numa mesa de boteco (não precisa ser um bar), rever os amigos e se embriagar com as risadas e os abraços de todos eles.

“Tanta coisa que eu tinha a dizer
Mas eu sumi na poeira das ruas
Eu também tenho algo a dizer
Mas me foge a lembrança
Por favor, telefone, eu preciso beber
Alguma coisa rapidamente
Pra semana…
O sinal…
Eu procuro você…
Vai abrir! Vai abrir!
Prometo, não esqueço
Por favor, não esqueça
Não esqueço, não esqueço
Adeus…”

Ouçam a música – http://www.youtube.com/watch?v=IEUPH1A7YkM

Ave mundi spes Christe

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O natal, nosso 25 de dezembro, além de se celebrar a troca de presentes e o consumo sem limites, também é uma data cristã, ou melhor, uma data que foi cristianizada, lá nos primeiros séculos de nossa era. Para nós, os cristãos, esse dia evoca muito mais do que o nascimento de Deus, evoca o nascimento de uma nova humanidade, o nascimento da esperança.

A Luz que ilumina toda a humanidade não se revela pela força, mas pela fraqueza, ela nasce entre os animais num estábulo; não faz atos extraordinários e grandiosos, pelo contrário, precisa ser alimentado pela mãe, precisa do cuidado do pai, precisa ser limpo, porque como toda a criança, também enche as fraldas. Enfim, é uma criança, tal como nós também fomos. Sim, esse é o grande escândalo, Deus se encarnou, Ele se tornou um ser humano! A esperança vem de uma manjedoura, da fragilidade, de alguém semelhante a nós.

Meu voto e pedido de natal são os mesmo que moveram as mãos, os pés e o coração do Cristo: a força tirada da fragilidade e vinda da esperança que pode transformar o mundo em um lugar melhor.

Nada expressa mais meu sentimento e minha vontade do que a introdução do livro A violência do amor (La violencia del amor) do dom Oscar Romero, arcebispo de São Salvador, que por sua militância pelos direitos humanos e por sua posição contrária o regime autoritário e violento do país, foi assassinado durante a celebração de uma missa. Diz o nosso autor:

“Jamais temos pregado violência.

Somente a violência do amor,

a que deixou Cristo cravado numa cruz,

a que faz cada um vencer seu egoísmo

e para que não haja desigualdades

tão cruéis entre nós.

Essa violência não é da espada,

a do ódio.

É a violência do amor,

a da fraternidade,

a que quer converter as armas

em foices para o trabalho.” [1]

Oscar Romero, 27 de novembro de 1977

O nascimento do Cristo é o nascimento da esperança, pois ele deu sua graça a todos, por isso podemos ter esperanças e força para mudar o mundo injusto e cruel num mundo cheio de beleza e bom, ou como diz Cartola em seu samba A cor da Esperança:

 

“Amanhã a tristeza vai transformar-se em alegria,

E o sol vai brilhar no céu de um novo dia,

Vamos sair pelas ruas, pelas ruas da cidade,

Peito aberto,

Cara ao sol da felicidade.

E no canto de amor assim,

Sempre vão surgir em mim, novas fantasias,

Sinto vibrando no ar,

E sei que não é vã, a cor da esperança,

A esperança do amanhã.”


[1] “Jamás hemos predicado violencia./Solamente la violencia del amor,/la que dejó a Cristo clavado en una cruz,/ la que se hace cada uno para vencer sus egoísmos/ y para que no haya desigualdades/ tan crueles entre nosotros./Esa violencia no es la de la espada,/ la del odio./Es la violencia del amor,/ la de la fraternidad,/la que quiere convertir las armas/ en hoces para el trabajo.” Para o download deste livro do Oscar Romero – http://servicioskoinonia.org/biblioteca/pastoral/RomeroBrokmanViolenciaDelAmor.pdf

A foto foi tirada do meu ícone da Theotókos.

Contribuição de Stanley J. Stein para os estudos do Jongo no Vale do Paraíba-Vassouras e Perspectivas de Robert Slenes sobre do Jongo

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Foto tirada na Associação da Comunidade Negra de Remanescentes da Fazenda de São José. Agradeço aos meus colegas de grupo pela foto.

Este foi o texto de apresentação de um seminário de História da África e dos Afrodescendentes no Brasil sobre Jongos no Vale do Paraíba.

Introdução:

Eu irei apresentar a trajetória intelectual de Stanley J. Stein a partir de seu relato e também na perspectiva de Robert Slenes, presentes no livro Memórias do Jongo: as gravações históricas de Stanley J. Stein. Vassouras, 1949. Com o fim de mostrar a importância das fontes coletadas e os estudos desenvolvidos por ele para a pesquisa sobre o Jongo, no Brasil.

Primeiros passos da trajetória intelectual de Stein

Stanley J. Stein nasceu em Nova Iórque, em 1920, formou-se em História em Harvard, em 1950. Especializou-se em História da América Latina. Veio ao Brasil com uma bolsa de estudos, em 42 e voltou em 48, para o Rio de Janeiro, para realizar seus estudos de doutoramento. Ele confessa que tinha grande interesse em estudar a participação do Brasil colonial na exportação desde o século XVI, com o açúcar, tabaco, depois o ouro e por fim o café.

Como alvo de seus estudos, escolheu o município de Vassouras, que foi maior produtora de café do mundo, na segunda metade do século XIX. Desenvolveu-o com base na documentação presente no arquivo da câmara municipal, em jornais, cartórios públicos e documentos de arquivos particulares, guardados nas casas das famílias locais. Sua tese levou o nome de Vassouras: um município brasileiro do café, 1850-1900.

Este trabalho tem grande preocupação em retratar as mudanças do cotidiano, das mulheres e da cultura material. Ele inova na ideia acerca dos escravos, mostrando-os não como meros agentes passivos, mas como agentes ativos, na própria história.

Influências em sua trajetória acadêmica:

No percurso de seus estudos em Harvard, Stein recebeu várias influências teóricas e metodológicas. Ele cita o folclorista Benjamin Botkin e os antropólogos americanos Melville Herskovits, Robert Redfield, que foi forneceu várias referências sobre sincretismo e etnomusicologia; esta última referência foi fundamental para levá-lo a prestar a devida atenção nos jongos.

Em relação aos intelectuais brasileiros, Stein também foi fortemente marcado, principalmente pelos estudos recém lançados de Gilberto Freyre, com Casa Grande e Senzala, na literatura com José Lins do Rego e seus cinco romances sobre o ciclo da Cana, a História do café no Brasil, de Affonso de Taunay, que foi grande fornecedor de fontes para seu trabalho.

Importância nos estudos sobre o Jongo:

Este pesquisador tem grande importância nos sobre o jongo, por conta da enorme quantidade de jongos, que coletou em sua viagem de 1948, ao Brasil. Para o desenvolvimento de seus trabalhos, fez diversas entrevistas com pessoas que viveram no período da escravidão.

Os estudiosos já haviam dado atenção às danças acompanhadas do Jongo, mas desprezaram os cantos, julgando-os sem importância. A perspectiva adotada por Stein, iluminada pelas teorias dos antropólogos americanos citados anteriormente, ele passa a dar mais atenção às letras das canções. Ele encontra nos jongos a sátira dos escravos contra os senhores, o tom amargo de ter a liberdade, mas não ter acesso a terra para plantar e também a notícia da abolição:

“Tava dormindo, cangoma me chamou:

Levanta, povo, que o cativeiro já acabou”

Sobre a liberdade sem acesso a terra:

“Não me deu banco pra mim sentar;

Dona Rainha me deu uma cama,

Não me deu banco pra me sentar”

Sobre a ironia dos jongos contra os senhores:

“Com tanto pau no mato

Embaúba é coronel”

Embaúba é uma madeira inútil; “coronel” é uma das formas de se referir ao senhor, que na maioria das vezes detinha tal título. Dessa forma os escravos ridicularizam seus senhores.

Stein, em seu período que passa no Brasil, grava vários jongos em seu gravador de fio, que é uma espécie de aparelho que registra sons em fio de aço, muito popular no pós-guerra, porém muito grande e pesado. Ele coletou vários desses jongos de homens e mulheres ex-escravos e ex-escravas, que viveram o período da pós-abolição e levou para os EUA, na volta da viagem.

Este rolo de arame, na qual estavam as gravações dos jongos ficou perdida em seu escritório por seis décadas. Porém, então o brasileiro Gustavo Pacheco estudante de antropologia do Museu Nacional, também organizador do volume Memórias do Jongo, que homenageia Stanley Stein, em 1999, foi à Universidade de Princeton e se interessou por tais gravações ao ouvir que Stein as tinha, porém sem saber onde havia guardado. Ao achá-las ele as enviou para Pacheco, no Rio de Janeiro.

Tais gravações contribuíram muito para os estudos sobre o jongo, por parte dos historiadores sociais.

Perspectivas de Robert Slenes sobre o Jongo a luz das ideias de Stein:

O jongo tem o caráter comunitário, independente se é dançado ou não. Quando eram acompanhados pelas danças, permitidas pelo senhor, nos sábados à noite, a luz das fogueiras, o fogo sagrado, que falaremos um pouco, posteriormente, dos instrumentos musicais, como os tambores afinados ao fogo, os chocalhos cheios de pedrinhas ou sementes, a puíta, espécie de cuíca de voz baixa. Ele é supervisionado pelo Mestre-Jongueiro, chamado na celebração de Rei do Caxambu¸ que é acompanhado por sua rainha; no início da festa ele lançava um jongo enigma. A partir de então os participantes começavam a dançar em círculos, bater palmas e cantar, enquanto os instrumentos eram tocados. Determinado momento o Rei do Caxambu cedia seu lugar a outro que tentava desvendar o jongo que o rei havia lançado e propondo outro.

Seu caráter comunitário também fica explícito a partir de outras características (1) os escravos de uma fazenda convidavam a outros de outras fazendas, para participar de suas festas, com cantos de jongos; (2) eles também cantavam todos juntos seu cotidiano, suas dificuldades, por vezes satirizando o senhor e sua família. Alguém puxava um verso propondo ao outro que respondesse, fazendo rimas com os versos do primeiro.

Slenes afirma que a obra de Stein nos propõe dois desafios (1) a percepção da linha tênue que separava os jongos do sagrado, da religiosidade e do lúdico e secular. Ele nos mostra que os elementos que compunham o jongo têm aspectos fortemente marcados pelo imaginário religioso dos negros. A fogueira, um desses elementos enumerados por ele, representava o fogo sagrado, a forma que se tinha para comunicar-se com os espíritos dos recém-mortos; e os Cultos de aflição, que são os cultos que envolviam músicas e danças, que eram meios de curas. Entretanto, é necessário fazer a crítica deste pensamento, muito marcado pela tradição ocidental, de separar o sagrado do que é secular, profano. Para as sociedades africanas o sagrado e o secular se misturam, de forma que toda a vivência se caracteriza por ser sagrada. Essa lógica está muito presente na sociedade medieval. (2) Ele também teve a percepção que por mais que houvesse a disputa entre os mestres jongueiros, havia uma coesão muito forte entre todos em volta das canções, que mostra esse nexo social mais amplo.

As letras dos jongos são feitas de forma que só os próprios escravos que cantam os jongos possam entender, inviabilizando o entendimento dos senhores:

“O sol virou

Nasceu”

Quando esses versos curtos eram pronunciados, os escravos sabiam que algo de perigoso poderia acontecer, e que, portanto, era uma expressão de alerta. Dessa forma ninguém entenderia os versos, caso não entendesse o código.

Julia Pinheiro Andrade afirma, em seu livro A Cidade Cantada: educação e experiência estética, no capítulo em que aborda o rap, que este ritmo foi criado pela periferia, que usava o vocabulário e as gírias do próprio bairro em suas letras, de forma que quem fosse de fora, das áreas mais abastadas da cidade, não conseguiria compreender. Isso se reflete hoje nas letras dos Racionais MC’s:

“Não adianta querer

Tem que ser tem que pá

O mundo é diferente

Da ponte pra cá.”

Da ponte pra cá, Nada como um dia após o outro dia.

Todas essas considerações que Bob Slenes nos faz sobre o Jongo em Vassouras é ancorado na nova historiografia sobre a África. Os negros escravizados no Vale do Ribeira vinham, basicamente, da região central da África, tanto ocidental quanto oriental; esse dado é de fundamental conhecimento, pois nos revelam várias coisas. Como a questão de que este território, da África central, compreende uma grande unidade cultural: linguística, na cosmovisão e na ideologia política. Eles compartilhavam do mesmo universo religioso, das mesmas ideias sobre medicina popular, muito vinculado às celebrações religiosas, como o já citado Culto de Aflição, eles também criam na comunicação com os mortos. Essa nova historiografia também nos mostra a tradição paralela ao jongo, radicada em Cuba, comprovando assim, que tais tradições vieram do mesmo local, da África central.

Slenes com isso sarava o grande Jongueiro Cumba, Stanley Stein, por sua grande contribuição nos estudos sobre o jongo, ao coletar as gravações de tais cantos na década de 40 e 50. Ele também sarava a grande folclorista brasileira Maria de Lourdes Borges Ribeiro, que também na década de 50 registra grande quantidade de jongos, que também foram fundamentais para o estudo desse dado tão rico e importante da cultura dos negros no pré e pós-abolição.

O grande desafio que o jongo nos propõe é a análise de seus versos e metáforas, para que por meio deles possamos descobrir e compreender a cultura riquíssima e preciosa destes negros.

Bibliografia:

Andrade, Julia Pinheiro.  “Racionais MC’s e a periferia onipresente”, In Idem, A cidade cantada: educação e experiência estética, São Paulo: Unesp, pp. 195-251, 2010.

Ribeiro, Maria de Lourdes Borges. “Influência da Cultura Angolense no Vale do Paraíba”, Revista brasileira de folclore, ano VIII, nº 21, Maio/Agosto, 1968, pp. 155-72.

Slenes, Robert W. “‘Eu venho de muito longe, eu venho cavando’: jongueiros cumba na senzala centro-africana”, In Silvia Hunold Lara e Gustavo Pacheco (orgs.), Memória do jongo: as gravações históricas de Stanley J. Stein. Vassouras, 1949, Rio de Janeiro/SP: Folha Seca/Campinas/Cecult, 2007, pp. 109-56.

Stein, Stanley J. “Uma viagem maravilhosa”, In Silvia Hunold Lara e Gustavo Pacheco (orgs.), Memória do jongo: as gravações históricas de Stanley J. Stein. Vassouras, 1949, Rio de Janeiro/SP: Folha Seca/Campinas/Cecult, 2007, pp. 35-42.

Jesus, o Cristo: É homem, é divino!

Ícone do Cristo Pantocrator (O Cristo que reina sobre tudo)

Uma das maiores necessidades da igreja é repensar sua Cristologia. Este trabalho já é feito pela teologia contemporânea desde o incompreendido Liberalismo teológico, do século XIX, passando por seus herdeiros contestadores, como Bultmann, até hoje.

Em quase toda a Cristologia, sempre houve a afirmação categórica, de que Jesus Cristo é verdadeiro homem e verdadeiro Deus. Nisto constatamos no Concílio de Calcedônia, no ano 451:

“… ensinamos a confessar um solo e mesmo Filho: nosso senhor Jesus Cristo, perfeito em sua divindade e perfeito em sua humanidade, verdadeiro Deus e verdadeiro homem…” (grifos meus)

Entretanto, o que se vê nas espiritualidades é percepção de um Cristo que é “apenas” Deus, contrariando essa visão dual, completa e viva, da tradição bíblica. Durante os sermões, em livros, periódicos, textos na internet, o que predomina é a hermenêutica que valoriza, demasiadamente, o fator divino de Jesus, em detrimento à sua humanidade. O Jesus homem descrito nos evangelhos é substituído por um ser sobrenatural, absolutamente distinto dos outros, uma divindade que caminha sobre a terra. Durante as minhas antigas leituras destes textos, enviesada por esse paradigma, os textos sagrados me soavam como uma piada: “por que Jesus, sendo Deus, e que sabia ler as mentes, prever o futuro, deixou isso acontecer?”. Eram muitas questões infantis, mas que tinham a necessidade de serem respondidas; afinal elas tocavam questões capitais, referentes a Jesus.

Neste processo, descobri que todo esse edifício teológico, que construíram em mim era falso, pois estava erguida numa falsa imagem de Jesus. Essa tentativa de valorizar seu lado divino, o transformou em um ilusionista, um mágico, um fazedor de truques. Certa vez, conversando com dois amigos da faculdade, um ateu e outro agnóstico, a respeito de Cristo, um disse: “Eu acho que Jesus é parecido com o Criss Angel [o mágico, ilusionista da televisão]”. Ao ouvir isso, instintivamente comecei a rir, porque essa visão é senão ridícula.

Há um tempo, lendo Auto da Compadecida, de Ariano Suassuna, no momento em que as personagens estão sendo acusadas pelo Encourado (demônio), me deparei com a seguinte declaração de João Grilo a respeito da divindade e humanidade de Jesus e outra para justificar, o porquê de ter que chamar a Compadecida (Nossa Senhora), para salvá-lo:

Manuel: ‘E por quem eles (os acusados) iriam gritar?’

João Grilo: ‘Por alguém que está mais perto de nós, por gente que é gente mesmo!’

Manuel: ‘E eu não sou gente, João? Sou homem, judeu, nascido em Belém, criado em Nazaré, fui ajudante de carpinteiro… Tudo isso vale alguma coisa.’

João Grilo: ‘O senhor quer saber de uma coisa? Eu vou lhe ser franco: o senhor é gente, mas não é muito, não! É gente e ao mesmo tempo é Deus, é uma mistura muito grande. Meu negócio é com outro.’” (grifo meu)

Em outro trecho:

“Compadecida: ‘E pra que foi que você me chamou, João?’

João Grilo: ‘É que esse filho de chocadeira (Encourado) quer levar a gente pra o inferno. Eu só podia me pegar, mesmo, com a senhora. […]’

João Grilo (ao Encourado): ‘Está vendo? Isso aí é gente e gente boa (referindo-se à Compadecida), não é filha de chocadeira não! Gente como eu, pobre, filha de Joaquim e de Ana, casada com um carpinteiro, tudo gente boa.’

Manuel (Jesus): ‘E eu, João? Estou esquecido nesse meio?’

João Grilo: ‘Não é o que eu digo, Senhor? A distância entre nós e o senhor é muito grande. Não é por nada não, mas sua mãe é gente como eu, só que gente muito boa, enquanto que eu não valho nada.’ [1]

Neste trecho, verificam-se as consequências dessa cristologia negadora da humanidade: a ideia de um Cristo distante da experiência humana, das tristezas, aflições e alegrias. Se o caminho adotado for unicamente a do Jesus Deus, será difícil a compreensão do texto de Hebreus:

temos um grande sumo sacerdote que adentrou os céus, Jesus, o Filho de Deus, apeguemo-nos com toda a firmeza à fé que professamos,
pois não temos um sumo sacerdote que não possa compadecer-se das nossas fraquezas, mas sim alguém que, como nós, passou por todo tipo de tentação, porém, sem pecado. Assim sendo, aproximemo-nos do trono da graça com toda a confiança, a fim de recebermos misericórdia e encontrarmos graça que nos ajude no momento da necessidade.
” [2]

No trecho de Suassuna, a Nossa Senhora tem o papel de substituir a humanidade inexistente em Jesus. Dessa forma, a Mariologia tem o papel de tampar o buraco deixado pela Cristologia. A figura de Maria, para uma teologia contemporânea, como para uma Teologia Feminista, não tem esse papel. Como acertadamente H. U. von Balthasar afirma que uma igreja sem mariologia tem o risco de cair no patriarcalismo. De fato, um dos desafios da igreja moderna é repensar o papel das mulheres no sacerdócio, fugindo do machismo, olhando para a importância delas dentro dos Evangelhos e nas primeiras comunidades.

A única saída dessa série de problemas é olhar para a tradição bíblica, da Igreja e também com os olhos da experiência, para a figura de Jesus. Enxergar um Jesus que se cansa, que chora, que se alegra; um homem como nós, que também passou por todas as experiências humanas, alguém radicalmente humano, que até seu último instante viveu os mesmos dramas, como todas as pessoas, inclusive a morte, o símbolo do mal que a nossa limitação. Sua ressurreição, a volta do ser integral de Jesus, sua vitória sobre o sofrimento, sobre a morte, o mal último, atesta que ele pode nos oferecer seu auxílio e seu cuidado nas nossas dificuldades e dores, com a promessa de sua presença permanente e real, nos potencializando a partir de dentro, a enfrentar toda a história, com a esperança da ressurreição, pois nem o pleno mal, a morte, encerra com o amor de Deus por nós.

O convite de Jesus é viver a experiência de contemplá-lo como homem, ou seja, como alguém que entende todas as nossas experiências. Mas também a vê-lo como Deus, que unido ao Seu companheirismo, pode abraçar a todos nós e pode nos ajudar a romper com todas as limitações.

“Humano assim só pode ser Deus mesmo!” – Leonardo Boff, Jesus Cristo Libertador.


[1] Ariano Suassuna, Auto da Compadecida, Rio de Janeiro: Agir, 2005, pp. 140, 146 e 148.

[2] Hebreus 4:14-16

Leituras do ano – 2012

Se finda mais um ano; o primeiro da minha graduação em História, na USP/FFLCH. O que se espera de um aluno de um curso de humanas é que seja um bom leitor; porém, pelo incrível que pareça não li tantos livros, não todos que queria. Passei os dois semestres, basicamente, lendo fragmentos de livros, os textos de aula, que são recomendados pelos professores. Vou fazer uma breve retrospectiva das minhas leituras, mas apenas menções dos livros. Não pretendo resenhá-los, nesta postagem, talvez, numa outra oportunidade.

 

Andrés Torres Queiruga, Recuperar a Salvação: por uma interpretação liberadora da experiência cristã, São Paulo: Paulus, 1999, 2ª edição 2005.

Andrés Torres Queiruga, Creio em Deus Pai: O Deus de Jesus como afirmação plena do humano, São Paulo: Paulus, 1993, 2ª edição 2005.

Andrés Torres Queiruga, Recuperar a Criação: por uma religião humanizadora, São Paulo: Paulus, 1999, 2ª edição 2003.

Andrés Torres Queiruga, O que queremos dizer quando dizemos “Inferno”, São Paulo: Paulus, 1996, 2ª edição 2008.

Rui Luis Rodrigues, Realização do homem, realização de Deus: ensaios de teologia e espiritualidade, São Paulo: Reflexão, 2009.

Rui Luis Rodrigues, Obra secreta da lembrança, São Paulo, 2010.

Ricardo Gondim, Pensando fora da caixa, São Paulo: Fonte Editorial, 2010.

Laura de Mello e Souza, O diabo e a terra de Santa Cruz: feitiçaria e religiosidade popular no Brasil colonial, São Paulo: Companhia das Letras, 1986.

Laura de Mello e Souza, Desclassificados do Ouro: A pobreza mineira no século XVIII, Rio de Janeiro: Edições Graal, 4ª edição revista e ampliada, 2004.

Matthew Restall, Sete mitos da conquista espanhola, Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2006.

Ariano Suassuna, Auto da Compadecida, Rio de Janeiro: Agir, 2005, 35ª edição, 17ª reimpressão, ilustrações de Romero de Andrade Lima.

Karl Marx e Friedrich Engels, Manifesto do Partido Comunista, São Paulo: Penguin/Companhia das Letras, 2012.

Gil Vicente, Auto da Barca do Inferno, Porto Alegre: L&PM, 2007.

Eu li razoavelmente pouco, a maioria são de teologia, dívida da minha antiga graduação e fruto do incentivo dos meus amigos, padrinho e sem dúvida, da minha grande paixão pelo tema.

Em 2013, pretendo ler mais literatura, mas sem abandonar a teologia e a história. Porque é pra isso, que esse blog foi criado.