Jesus, o Cristo: É homem, é divino!

Ícone do Cristo Pantocrator (O Cristo que reina sobre tudo)

Uma das maiores necessidades da igreja é repensar sua Cristologia. Este trabalho já é feito pela teologia contemporânea desde o incompreendido Liberalismo teológico, do século XIX, passando por seus herdeiros contestadores, como Bultmann, até hoje.

Em quase toda a Cristologia, sempre houve a afirmação categórica, de que Jesus Cristo é verdadeiro homem e verdadeiro Deus. Nisto constatamos no Concílio de Calcedônia, no ano 451:

“… ensinamos a confessar um solo e mesmo Filho: nosso senhor Jesus Cristo, perfeito em sua divindade e perfeito em sua humanidade, verdadeiro Deus e verdadeiro homem…” (grifos meus)

Entretanto, o que se vê nas espiritualidades é percepção de um Cristo que é “apenas” Deus, contrariando essa visão dual, completa e viva, da tradição bíblica. Durante os sermões, em livros, periódicos, textos na internet, o que predomina é a hermenêutica que valoriza, demasiadamente, o fator divino de Jesus, em detrimento à sua humanidade. O Jesus homem descrito nos evangelhos é substituído por um ser sobrenatural, absolutamente distinto dos outros, uma divindade que caminha sobre a terra. Durante as minhas antigas leituras destes textos, enviesada por esse paradigma, os textos sagrados me soavam como uma piada: “por que Jesus, sendo Deus, e que sabia ler as mentes, prever o futuro, deixou isso acontecer?”. Eram muitas questões infantis, mas que tinham a necessidade de serem respondidas; afinal elas tocavam questões capitais, referentes a Jesus.

Neste processo, descobri que todo esse edifício teológico, que construíram em mim era falso, pois estava erguida numa falsa imagem de Jesus. Essa tentativa de valorizar seu lado divino, o transformou em um ilusionista, um mágico, um fazedor de truques. Certa vez, conversando com dois amigos da faculdade, um ateu e outro agnóstico, a respeito de Cristo, um disse: “Eu acho que Jesus é parecido com o Criss Angel [o mágico, ilusionista da televisão]”. Ao ouvir isso, instintivamente comecei a rir, porque essa visão é senão ridícula.

Há um tempo, lendo Auto da Compadecida, de Ariano Suassuna, no momento em que as personagens estão sendo acusadas pelo Encourado (demônio), me deparei com a seguinte declaração de João Grilo a respeito da divindade e humanidade de Jesus e outra para justificar, o porquê de ter que chamar a Compadecida (Nossa Senhora), para salvá-lo:

Manuel: ‘E por quem eles (os acusados) iriam gritar?’

João Grilo: ‘Por alguém que está mais perto de nós, por gente que é gente mesmo!’

Manuel: ‘E eu não sou gente, João? Sou homem, judeu, nascido em Belém, criado em Nazaré, fui ajudante de carpinteiro… Tudo isso vale alguma coisa.’

João Grilo: ‘O senhor quer saber de uma coisa? Eu vou lhe ser franco: o senhor é gente, mas não é muito, não! É gente e ao mesmo tempo é Deus, é uma mistura muito grande. Meu negócio é com outro.’” (grifo meu)

Em outro trecho:

“Compadecida: ‘E pra que foi que você me chamou, João?’

João Grilo: ‘É que esse filho de chocadeira (Encourado) quer levar a gente pra o inferno. Eu só podia me pegar, mesmo, com a senhora. […]’

João Grilo (ao Encourado): ‘Está vendo? Isso aí é gente e gente boa (referindo-se à Compadecida), não é filha de chocadeira não! Gente como eu, pobre, filha de Joaquim e de Ana, casada com um carpinteiro, tudo gente boa.’

Manuel (Jesus): ‘E eu, João? Estou esquecido nesse meio?’

João Grilo: ‘Não é o que eu digo, Senhor? A distância entre nós e o senhor é muito grande. Não é por nada não, mas sua mãe é gente como eu, só que gente muito boa, enquanto que eu não valho nada.’ [1]

Neste trecho, verificam-se as consequências dessa cristologia negadora da humanidade: a ideia de um Cristo distante da experiência humana, das tristezas, aflições e alegrias. Se o caminho adotado for unicamente a do Jesus Deus, será difícil a compreensão do texto de Hebreus:

temos um grande sumo sacerdote que adentrou os céus, Jesus, o Filho de Deus, apeguemo-nos com toda a firmeza à fé que professamos,
pois não temos um sumo sacerdote que não possa compadecer-se das nossas fraquezas, mas sim alguém que, como nós, passou por todo tipo de tentação, porém, sem pecado. Assim sendo, aproximemo-nos do trono da graça com toda a confiança, a fim de recebermos misericórdia e encontrarmos graça que nos ajude no momento da necessidade.
” [2]

No trecho de Suassuna, a Nossa Senhora tem o papel de substituir a humanidade inexistente em Jesus. Dessa forma, a Mariologia tem o papel de tampar o buraco deixado pela Cristologia. A figura de Maria, para uma teologia contemporânea, como para uma Teologia Feminista, não tem esse papel. Como acertadamente H. U. von Balthasar afirma que uma igreja sem mariologia tem o risco de cair no patriarcalismo. De fato, um dos desafios da igreja moderna é repensar o papel das mulheres no sacerdócio, fugindo do machismo, olhando para a importância delas dentro dos Evangelhos e nas primeiras comunidades.

A única saída dessa série de problemas é olhar para a tradição bíblica, da Igreja e também com os olhos da experiência, para a figura de Jesus. Enxergar um Jesus que se cansa, que chora, que se alegra; um homem como nós, que também passou por todas as experiências humanas, alguém radicalmente humano, que até seu último instante viveu os mesmos dramas, como todas as pessoas, inclusive a morte, o símbolo do mal que a nossa limitação. Sua ressurreição, a volta do ser integral de Jesus, sua vitória sobre o sofrimento, sobre a morte, o mal último, atesta que ele pode nos oferecer seu auxílio e seu cuidado nas nossas dificuldades e dores, com a promessa de sua presença permanente e real, nos potencializando a partir de dentro, a enfrentar toda a história, com a esperança da ressurreição, pois nem o pleno mal, a morte, encerra com o amor de Deus por nós.

O convite de Jesus é viver a experiência de contemplá-lo como homem, ou seja, como alguém que entende todas as nossas experiências. Mas também a vê-lo como Deus, que unido ao Seu companheirismo, pode abraçar a todos nós e pode nos ajudar a romper com todas as limitações.

“Humano assim só pode ser Deus mesmo!” – Leonardo Boff, Jesus Cristo Libertador.


[1] Ariano Suassuna, Auto da Compadecida, Rio de Janeiro: Agir, 2005, pp. 140, 146 e 148.

[2] Hebreus 4:14-16

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One thought on “Jesus, o Cristo: É homem, é divino!

  1. […] Ronaldo Junior, no História e Teologia […]

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